| inteiros ou quase |

mania de listas
Alice Sant'Anna

franja na cara
piscar os olhos com força
andar engraçado
gargalhada sem barulho
roer as unhas dos pés
dois laços no cadarço
cortar os próprios cabelos
reconhecer alguém pelo cheiro
prender a respiração no túnel
sonhar com piscinas

mania que é mania
a gente só percebe
quando alguém ri



domingo nublado
Alice Sant'Anna

[...] lá em casa
as janelas ficam abertas
para deixar o cinza à vontade
meu pai diz pode colocar
à mesa, eu dobro guardanapos
mamãe espalha pratos, marina
escolhe talheres, a tv murmura
baixinho: o almoço chega da cozinha
numa panela muito quente
e a grande surpresa ao levantar
a tampa — as tardes de domingo
são pequenas joias



Cosme Velho
Alice Sant'Anna

uma mulher carrega sua televisão
no colo como se fosse um bebê
um homem desce de muletas
pela porta da frente, um jovem
anota exclamações para si mesmo
em um caderno (terminar
o trabalho hoje sem falta!!!!!!)
uma turista enrolada
em uma canga azul não passou protetor
solar, a cobradora altiva
conversa com dois
homens que esticam pescoço
de ganso para assistir ao balanço de seus
brincos, o ônibus atravessa
desembestado o rebouças no fim
de tarde, alguns escutam música
poucos lêem, uma menina brinca
com os cabelos, saímos do túnel
e flutuamos numa lagoa de céu
rosa rabiscado
com duas ou três nuvens



Receita para um dálmata
Gregório Duvivier

Pegue um papel, ou uma parede, ou algo
que seja quase branco e bem vazio.
Amasse-o até que tome forma
de um animal: focinho, corpo, patas.

Em cada pata ponha muitas unhas
e em sua boca muitos dentes. (Caso
queira, pinte o focinho de qualquer
cor que pareça rosa). Atrás, na bunda,

ponha um fiapo nervoso: será seu
rabo. Pronto. Ou quase: deixe-o lá
fora e espere chover nanquim. Agora

dê grama ao bicho. Se ele rejeitar,
é dálmata. Se comer (e mugir),
é uma vaca que tens. Tente outra vez.